quinta-feira, 31 de março de 2011

Breves notas sobre Tha Carter III


"Ó Pedro, ganha juízo!", pensam os meus leitores. Lêem Lil' Wayne e riem-se. Imaturos.
Se Kanye West fez furor o ano passado com o fabuloso My Beautiful Twisted Dark Fantasy, Lil' Wayne  fez de 2008 o seu ano. Tha Carter III é um álbum muito interessante, que segundo Wayne tem "tendências rock". Afirmação descabida. O hip-hop tem de se fazer sem este tipo de pretensões, e, no fundo, Lil' Wayne fá-lo. Não há nada de rock aqui, se bem que Shoot Me Down pareça saído de Olhos de Mongol (Linda Martini). Sonoridades brutais e letras pouco profundas, como se quer.
Gostei particularmente de Tha Carter III, porque Lil' Wayne não precisou de prometer uma sinfonia para tornar o último dos Muse numa flatulência. Quase não precisava de letras pois as batidas são fantásticas, destaque óbvio para as extraordinárias 3 Peat e A Milli (engraçado comparar com Monster de Kanye West)
Para todos os que têm mente aberta para boa música.


7.2 (de 0 a 10)


Pedro Ramalhete

Depois da sabedoria de Chelas, a sabedoria de Almada

O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.
António Vieira

Frase da Semana

Não há ninguém que goste mais de ti que tu própria. Eu sei que custa muito ouvir isto, eu sei que custa...

Retenho de uma conversa entre duas adolescentes na rua. Não dispenso uma ou outra leitura, mas a sabedoria de Chelas é quase suficiente.
António Vieira

quarta-feira, 30 de março de 2011

Los Hermanos


Deveria começar por apresentar a banda, não é? Contar a habitual história da metamorfose ocorrida após o estrondo sucesso com a canção mais pegajosa de 1999: Anna Julia. Bloco do Eu Sozinho, segundo e, talvez, melhor disco da banda brasileira Los Hermanos, ocuparia o resto do meu comentário numa espécie de crítica. Estou certo que se me propusesse falar sobre a banda de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante há uns meses sairia algo com esta estrutura. Ignorava o 4, último disco da banda – porque ouvira, bocejara e nunca mais lhe tocara (mais-que-perfeito, este pedaço de prosa). No outro dia estava suficientemente mariquinhas para, com o rigor que só um mariquinhas pode ter, avaliar este disco dos Los Hermanos. Mariquinhas? Percebam: sensibilidade e calma. Perceberão ainda melhor lá à frente. Hoje não é mais um objecto inferior. São mesmo quatro os discos dos Los Hermanos, e actualmente ouço três deles. Porque já ouço o 4.

4

Os jovens portugueses têm uma resistência ao sotaque brasileiro. Telenovelas? A música “brega” importada? Jogadores de futebol? (Incompreensível: ouvir o Luisão é das melhores coisas que levo desta vidinha.) Estou a tentar explicar a falta de entusiasmo recebida sempre que tento apresentar os Los Hermanos, ou a sua maior e melhor parte (toda a gente conhece o êxito Anna Julia). Hoje não insisto, nem me incomodo com a desconfiança. Saber lidar com as resistências dos outros é reconhecer as nossas próprias resistências. E se com outra banda este discurso é tão óbvio que vira deprimente, com os Los Hermanos é apropriado. Comigo a paixão foi imediata, tal como a vergonha de sair com eles para a rua de braço dado (as raparigas sentem o mesmo em relação a mim, tirando a parte da paixão). "Vergonha de quê?", pergunta o único leitor que ao olhar para o tamanho do post decidiu continuar. "Eu acho o Jon Bon Jovi um grande compositor. Todo o meu lado melodioso, a minha procura pela melodia bonita, eu devo ao Bon Jovi, ele foi o meu alfabetizador musical.", disse Marcelo Camelo numa entrevista. Isto assusta, não assusta?


Sentimental, álbum Bloco do Eu Sozinho (2001)

Volto à ideia: os Los Hermanos são uma banda mariquinhas. Curiosamente a coragem que lhes reconheço depende desta avaliação. Paira no ar a ideia de que quase caiem num romantismo cujo romantismo é pouco apreciável. Aquele que os minimamente exigentes rejeitam, porque é fácil, não dá respostas, não alimenta um reconhecimento estimulante, não nos deixa a pensar nas palavras porque são só palavras iguais às palavras mínimas que trazemos connosco para a vida. Também não procuro esse romantismo no trabalho de quem quer cantar sentimentos. Só não alinho nos exageros da exigência (que tal isto?). As canções têm palavras e sons. Por terem também sons, e principalmente por esses sons constituírem o seu âmago, uma canção não é um poema. Esta questão mereceria outro post, porque nada tem que ver com os Los Hermanos. Eles oferecem-nos letras excelentes: não dão respostas (ninguém dá, por isso aqui nada muda), alimentam um reconhecimento estimulante (ou estimulam a imaginação), deixam-nos a pensar nas palavras, mas, mais do que isso, entregam-nas com respeito pelo seu verdadeiro propósito. Id est, embrulham-nas num ambiente musical irrepreensível. São uma grande banda; cumprem os requisitos para serem uma grande banda; e há grandes bandas que arriscam mais o estatuto de grande banda. Mas como o destino é infame olha-se para eles e avista-se sempre aquela linha ténue que separa o “bom” romantismo do “mau”. Tanto quando descrevem uma relação, como quando pegam numa guitarra para o mesmo efeito.


Exemplo de coragem
Mais uma canção, álbum Bloco do Eu Sozinho (2001)

Felizmente, desde Bloco do Eu Sozinho, nunca caíram em sentimentalismos embaraçosos, nunca deixaram de ser bons. Quem considera o contrário está confuso - não tem sensibilidade para perceber que apesar da fronteira existir, torná-la nebulosa sem nunca desrespeitá-la é mestria daquela digna de mestres. Esta ideia da fronteira no trabalho dos Los Hermanos não tem aqui a sua principal utilidade.


Eu sei como é doce te amar, o amargo é querer-te pra mim
Condicional, álbum 4 (2005)

A hipótese "trabalho de laboratório" é absurda para descrever a obra dos Los Hermanos. A aproximação entre o rock e a música popular brasileira não me parece ter sido um objectivo, um fim que eles tenham perseguido, a concretização de uma ideia ao jeito de João Aguardela (se sim, o trabalho do português será sempre mais ambicioso pela distância a que se encontravam as duas realidades que quis unir). Só isto: a música brasileira (ou a música brasileira criada por esta banda) gosta mais dela própria - brincando com o nome de um projecto de Tiago Pereira, realizador do documentário Tradição Oral Contemporânea com B Fachada. João Gilberto influenciou mais Marcelo Camelo que os Beatles, e inconscientemente deu-se a aproximação. No álbum 4 essa aproximação atinge a perfeição.  Alguns brasileiros imploram: "não me enche o saco com essa história de morenas, 'tá bom?" Por isso consideram 4 tedioso (ou pela sua coesão). É, para muitos, o culminar do processo que aproxima a banda da ideia de "seca". À primeira audição o meu veredicto encaixava-se nessa crítica.  Nunca os Los Hermanos se levaram tanto a sério como neste disco. Com calma acabamos também por admitir  que nunca como no 4 aquelas barbas lhes assentaram tão bem. Estão sábios; capacitados para dar um passo em frente. E 4 é um passo em frente, ainda que para o fim. Aí chegados as barbas não nos apresentam uns náufragos. Chegaram ao leme da embarcação e orgulhosos do percurso. Este álbum de 2005 lembra a tendência actual das músicas levadas ao Festival da Canção em Portugal (embora este ano tenha notado o esquecimento dessa fórmula). Mar, mar, mar. Não se faz a apologia do mar como no Festival, mas há mar. Quando há "ilha", "farol", "cais", "barcos", ou quando, sem referências (a maioria, até), cheira-nos a praia (não a Sasha Beach). Uma viagem vagarosa até o vento soprar um pouco em O Vento e agitar a embarcação durante duas músicas: Horizonte Distante (ouço Neutral Milk Hotel aqui, para meu rejúbilo) e Condicional. Com arranjos muito bonitos, este é um álbum extraordinário - que expectativas tinham quanto às minhas críticas?


Anna Julia, álbum Los Hermanos (1999)

"Entretanto descobri também que tenho ciúmes dos Los Hermanos. Tenho ouvido o disco ao vivo e é no mínimo arrepiante ouvir aquele público. Quero aquilo para mim!", disse Hélio Morais dos Linda Martini ao Bodyspace. Compreensível. Eu que não sou nada deste tipo de manifestações chego a invejar aquela gente. E um dia cantar assim, sem vergonha na cara, as Annas Julias da nossa vida só poderá significar sucesso.

Ouçam os brilhantes Bloco do Eu Sozinho, Ventura e 4. Para constatar a evolução ouçam também o primeiro. Ouçam tudo, se faz favor.

António Vieira   

Frases Bonitas II

O DN julga que aquelas citações por cima do nome do jornal disfarçam tudo?
António Vieira

terça-feira, 29 de março de 2011

"Quem espera sempre alcança"

O vídeo que se segue pode conter imagens impróprias para aquelas pessoas que costumam "comer e chorar por mais [fast-food]":


(Ver vídeo)

Este momento, totalmente legítimo, é da autoria de uma madame americana de 31 anos, que, farta de esperar, começou (logicamente) a partir o restaurante Burger King e a agredir os seus funcionários.

É que isto há com cada uma? Quer dizer...as pessoas que vão a estes estabelecimentos esperam (e exigem) um atendimento rápido. Obviamente que, se não são rapidamente atendidas, ficam chateadas. Muito chateadas.

Aliás, pegando neste exemplo, de hoje em diante, a senhora da frutaria ali de baixo passa a saber que comigo (sem acentuação no "o", senhor) tem que se por a pau. Caso contrário, acho que corre o risco de ver no seu estabelecimento pessoas (e senhores) à batatada...

Já agora, queria ainda referir que fico muito reconfortado ao ver estas imagens de troca de carícias entre clientes e empregados. É bom saber que as pessoas se tratam tão bem ...

André Santos

Escatologia

   Digo, desde já, que este assunto é demasiado delicado. Peço ao leitor compreensão. Não tenho síndrome de tourette, mas prometo que vou asneirar o mais que puder e ser arrogante, talvez desassisado. Contudo, não se pense que isto é uma anedota.
   Estão três pessoas à frente de uma televisão: um coprólogo, uma actriz de revista e um miúdo fascinado pelo apocalipse. Sim, são uma família. Como qualquer família normal, comem em frente ao televisor. Não há diálogo possível, pois assiste-se ao fabuloso programa “Bora lá Marina”.
“Cócó xixi, pilinha pipi!”.
   Os graúdos riem-se; o miúdo, envergonhado, vai para o quarto a correr da forma mais melodramática que se possa imaginar. Em pleno trote disléxico, pensa: “Eu sei que trabalham ambos no meio de merda, mas rirem-se da Marina Mota ofende-me. O que é que eu fiz para merecer isto?”. O rapaz de cujo nome me esqueci, apesar de ser mais burro que o Cláudio Ramos, sente-se um sábio (crème de la crème) ao lado dos pais.
   Ter um pai que passa o dia a estudar excrementos e uma mãe que ganha dinheiro a bracejar “manguitos” para uma plateia de imbecis é difícil. Deprime. Este mundo, conservador, ainda não aceita estas profissões: “olha, lá vai o filho do gajo que é perito em escatologia! Devia ter vergonha.”. Imagino o sofrimento de um filho cujo pai tenha de ganhar dinheiro a estudar fezes humanas. Deve ser uma merda (humor demasiado escatológico?).  
   O puto nunca leu a Bíblia, a teologia pouco lhe interessa. No entanto, não há pessoa mais devota do que ele quando se fala sobre o fim dos tempos.“Gostava de ler o Apocalipse”, pensa ele, preso no seu cubículo intelectual. Estes pensamentos, aleatórios, penetram-lhe na cabeça enquanto ouve, lá ao longe, a voz estridente de Marina Mota: “Feitiozinho de merda!”
   No cimo da prateleira está uma Bíblia poeirenta. Sim, vamo-nos focar na igreja católica (ninguém quer saber da visão apocalíptica das outras religiões). A curiosidade invade o rapaz. Pega no melhor livro de ficção de todos os tempos, e começa a passear pelos versículos finais. “Isto é mesmo bom!”, exclama completamente extasiado.  Devora uma página atrás de outra, ao mesmo ritmo que os senhores seus pais arrotam o alfabeto, em uníssono (escatologia também é diversão).
   Escusado será dizer, que a intepretação de um miúdo de treze anos da Bíblia é semelhante àquela que Charles Manson fez da música Helter Skelter. Mesmo assim, penso que  adorar o fim do mundo faz mais psicopatas do que a música dos Beatles. Ah! Já me esquecia. O humor de revista -Marina Mota, Carlos Cunha e o resto da corja-, cujas frases acabam sempre em alho e ona, também é um catalisador para a psicopatia (escatologia também é miséria). 
   Mas, visto que o limite de caracteres escasseia, vou directo ao assunto. O filho, armado em Bruce Willis, numa sequência de Pulp Fiction, empunha uma espada de samurai, que estava, tal como a Bíblia, no cimo da prateleira. Num bilhetinho escreve, toscamente: “toda a merda merece um apocalipse” (escatologia também é loucura). Qualquer pessoa, com dois dedos de testa, que leia isto percebe o que está para acontecer.
   Escalpes a voar, sangue a jorrar como se de um repuxo se tratasse e vísceras na parede. Inspirado nos filmes mais ferozes de Tarantino, cria-se um cenário escatológico. O miúdo teve o que queria: pôs termo ao sofrimento alegre da sua família e teve o seu próprio apocalipse (escatologia também é moral).  
   Não, a palavra que eu escolhi não foi “violência”, nem “demente”. Perguntam-me agora: “o que é que este delírio tem que ver com escatologia?”. Há pistas no texto, por isso, vejam no dicionário.    


Como os Senhores nunca falaram da Marina Mota decidi colocar aqui o meu texto da palavra, que fiz para a cadeira de TEP.

Pedro Ramalhete

Com espaço para um só fenómeno

Portugal é um país sem espaço. Os portugueses não dão espaço. Há Cristiano Ronaldo, não há outro desportista. Há Gato Fedorento, não há outro programa de humor. Há Tony Carreira, não há outro cantor de música popular para quarentonas com a sensibilidade dos adolescentes, reformados e restantes que gostam dele. Há José Sócrates, não há outro saco de pancada. Há Soraia Chaves, não há outra actriz com seios no seio do nosso cinema. Há uma telenovela, não há... Vá, não se aplica a tudo. Existe um fenómeno que concentra atenções e tende a secar o terreno no que diz respeito à atenção mediática. Sou todo a favor de Cristiano Ronaldo, Gato Fedorento ou Soraia Chaves. A culpa é apenas desta tendência portuguesa, que, aliás, encontra paralelo nas localidades do interior ou nos bairros da cidade.
Para a nossa comunicação social há "o" violador de Telheiras, e não "um" violador de Telheiras. Telheiras até poderia ter outro violador, tal como Santa Comba Dão outro serial killer. Subestimar os sítios não me parece correcto. Assim duvido muito que os outros violadores a fazerem carreira em Telheiras sintam vontade de continuar. Se desistirem será mesmo a segunda consequência positiva desta tendência. A primeira é a conservação do lado pitoresco dos lugares. Tem que ver com o cumprimento de uma determinada função dentro da comunidade. O polícia de Telheiras, o sapateiro de Telheiras, o alfaiate de Telheiras, o médico de Telheiras e, está claro, o violador de Telheiras. Problema é existir vilas no interior do país com violador, mas sem médico. Mau para todos. Mau para as vítimas e para o próprio violador. O de Telheiras, por exemplo, terá de tomar medicação para o resto da vida por causa de uma eventual "recaída" (cito o advogado do violador de Telheiras, ou advogado de Telheiras). Compreendo que alguns homens (normais) a partir de certa idade tomem medicação para evitar recaídas. Em relação a um violador tenho as minhas reticências.
António Vieira  

segunda-feira, 28 de março de 2011

Jogo Didáctico III - Resolução

 
A resposta correcta é a alínea d). A relação entre estes dois animais é a que se explica de seguida:
 
"Ovelha dá à luz cria que se parece com cão
 
Aconteceu na província de Shaanxi, na China. Uma das ovelhas de um agricultor deu à luz um filhote que se parece não com uma ovelha...mas com um cão.
 
Liu Naiying contou à imprensa britânica que estava a andar pelos seus campos quando se apercebeu que a ovelha tinha dado à luz. "O cordeiro ainda estava molhado", disse.
Porém, quando se aproximou notou algo diferente na aparência do filhote.
"Fiquei chocado, pois parecia estranho, uma espécie de cruzamento entre uma ovelha e um cão", afirmou Liu."
  
Mãe e filho. Quem diria?
Os Senhores desejam  felicidades ao novo rebento e esperam que, num futuro próximo, o pai (cão) assuma as suas responsabilidades perante a mãe (ovelha).
Já é tempo de dizer basta a estes "animais" que engravidam as moças e depois não assumem as suas responsabilidades.
 
(A todos os que acertaram os meus parabéns! Aos que não acertaram, desejo melhor sorte para a próxima.)
 
                                                                                                                André Santos

Frases Bonitas

Aquelas frases na estação de Metro do Saldanha são mesmo necessárias? Escutem, as estações de Metro são como as apresentadoras do Fama Show: não se querem sábias nem eruditas.
António Vieira